Tudo começa muito antes dos tambores. Começa na floresta, quando homens e mulheres entram mata adentro para escolher os mastros. Passa pelo rio, onde os catraieiros levam essas madeiras de canoa até a vila. Passa pela roça, onde a mandioca vira beiju e, depois de alguns dias, tarubá. Quando a arena acende as luzes em Alter do Chão, o Sairé já está de pé há séculos.
Um povo que está aqui desde sempre
O Sairé pertence ao povo Borari, que vive no Baixo Tapajós, no oeste do Pará. A Terra Indígena Borari de Alter do Chão reúne as aldeias Alter do Chão, Caranazal e Curucuruí, com cerca de 1.200 famílias. Para os Borari, território não é só terra. É uma rede viva de lagos, praias, florestas, lugares de pesca e espaços sagrados habitados pelos encantados, os guardiões da natureza. O Lago Verde é descrito pelo próprio povo como o coração desse universo, e a Serra do Curucuruí é considerada sagrada.
O Sairé é a prova de que o nosso povo existe e resiste, diz o cacique Osmar Vieira de Oliveira, que coordena o rito tradicional.

O arco, os mastros e o tarubá
O símbolo da festa é o arco do Sairé, em forma de meia-lua, com cruzes no centro e coberto de fitas coloridas. Ele nasce de antigos rituais à lua e é carregado pela Saraipora, a guardiã do símbolo e, em geral, uma das pessoas mais respeitadas da comunidade. Os mastros representam a fartura que o território oferece, e quem os busca tem um cuidado que poucas festas têm: para cada duas árvores cortadas, plantam de 50 a 100 mudas.
Há ainda o tarubá, a bebida de mandioca fermentada que o povo prepara desde sempre para os puxirum, os mutirões coletivos. Ele marca os momentos de encontro e fecha as celebrações, quando o mastro é derrubado. É uma cultura do encontro, em que ninguém come ou celebra sozinho.
Uma festa que quase silenciou
A história do Sairé tem mais de 300 anos e atravessou períodos difíceis. A celebração chegou a ser proibida por cerca de três décadas, e em 1973 os moradores a retomaram como manifestação cultural. Hoje, o Sairé acontece todo mês de setembro, por cerca de uma semana, e foi reconhecido em 2024 como manifestação da cultura nacional pela Lei 14.997.

O Festival dos Botos, criado no fim dos anos 1990, trouxe a festa para o palco com a disputa entre os botos Cor-de-Rosa e Tucuxi, além da Cabocla Borari e da Rainha do Sairé. É a parte mais vista da festa e conta com a mesma floresta, o mesmo rio e as mesmas lendas que os Borari guardam há gerações.
Como viver o Sairé com respeito
Ver o Sairé de perto é um privilégio. Chegue com curiosidade, acompanhe as procissões em silêncio, prove o artesanato feito pelas comunidades e pergunte antes de fotografar quem carrega os símbolos sagrados. Cada compra e cada conversa ajudam a manter viva uma cultura que também luta, há mais de duas décadas, pela demarcação do seu território.

Setembro é seca, o rio está baixo e as praias aparecem. Antes da festa, a dica da Sol Ecoturismo Alter do Chão é passar o dia no Tapajós e deixar o pôr do sol de despedida preparar você para a noite. Quem vive o rio de manhã entende melhor a festa à noite.


